quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Campanha de reeleição

Vivo entre a realidade dura das infiltrações e vazamentos, mas achei espaço para sonhar. O subsíndico, se acabando de rir, me chamou de maluca. Tenho determinação, vai dar pé. 

Passando pela Barra negociei receber o entulho de uma obra. Duas viagens de uma saveiro abarrotada de pedras portuguesas. Vou propor fazermos um pátio na área do fundo do prédio. 

Promessa de campanha para minha reeleição.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Telhado e amor

[eu, síndica] Mais segredos do telhado. Antes de mandar o tal-edital de convocação para assembleia do telhado, chamei todo mundo na chincha. Protocolei uma pergunta sobre qual o melhor dia a assembleia, duas opções. "E o que te impede de participar?". Convocação carimbada.

Moradores vieram do Recôncavo e da Chapada Diamantina. Teve parente procurador. Sete apartamentos representados. Sete de onze. Poderíamos ter sido oito - se os afetados diretamente pela infiltração tivessem aparecido.

A assembleia começou em primeira convocação com resenhas de viagens pro interior e fofocas de moradores antigos. Em segunda convocação, evitamos as ciladas, sustentamos a urgência da obra apesar das ausências físicas e financeiras.

Pense que todos os presentes participaram do debate. Aos treze de agosto de 2015, ficou decidida por unanimidade a cobrança de taxa ext... "Não diga taxa extra", escreva aí "investimento". Os moradores têm seis meses para integralizar o investimento da maneira como QUI-SE-REM. De uma vez, de duas, dez, cinquenta vezes... Isso até dia 10 de fevereiro, quando juros e multas se apresentam em centenas, dezenas e centavos.

A assembleia se desfez e alguns de nós ficamos para a resenha final. Um vizinho contou que se pelava de medo de outro por conta dos transtornos de reformas. Recentemente eles se cumprimentaram sorrindo na rua.

Eu corri pra fazer a ata e recolher as assinaturas. No sábado 9h da manhã meu interfone tocou. Então às 10h
- Que preguiça é essa?? Acorda, minha filha!!
- Acordar eu acordo, mas só amanhã!
- Entendi..! Depois você me chama.

Segunda de manhã, o interfone da incrível central digital funcinou mais uma vez.
- Estou te ligando pra dizer que a data da ata veio errada. E o CPF do subsíndico.

Era o senhor de sempre, de todas as histórias. A pessoa mais apaixonada por esse condomínio. Amor tão grande que assusta.
Hoje na visita de um moço faz-tudo admiro muito.
- E aí agora que a patroa pediu os tempos... As coisas se acertaram?
- Gina, tá tudo mudado, tá uma correria. Daqui vou lá na Barra, depois volto pra Graça e lá no Costa Azul. Preciso de uma secretária.
- (eu ri)
- Mas é sério, eu preciso de uma secretária, preciso aprender esse negócio de computador. Comprei um computador. Tive que mudar de casa porque lá em casa não dava mais. Saí quarto e sala. A casa agora tem os equipamentos, os andaimes. Porque alugar é prejuízo, né? Pense aí. Meu advogado disse que tem que fazer contrato. Levei os papeis no Sebrae e agora sou micro empresário Aí tem que ter impressora. A primeira via é minha. Vou lá no Costa Azul para pegar o contrato e ver o trabalho dos meninos que eu trouxe do interior.
- (...) Sim, e o valor do serviço da calçada?
- Vou ver se consigo umas pedras portuguesas numa obra lá em cima. Te falo mais tarde pelo whatsapp.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mau dia e cinquenta reais de boa vontade

[eu, síndica] Me lembro sempre de uma moça que me perguntou "o que faz a felicidade de uma síndica". Eu viro o dia pelo avesso. Faço como nós mulheres fazemos: pego a bolsa e jogo todo conteúdo em cima da cama. No princípio é o caos. Então as coisas e os trechos vão para seus lugares. Nem tudo é necessaire, claro - mas às vezes aparece uma nota graúda perdida.

Todo esse preâmbulo nonsense para começar a falar de cartório, lembrar que as coisas simples complicam e as complicadas dissolvem. Continuo com a missão de registrar a convenção iniciada em 2013. Não me pergunte por quê, mas estou há dez meses correndo atrás de 11 números de matrículas, 11 números de CPF, 10 assinaturas e 7 firmas reconhecidas. Além disso, como a administradora do prédio achou só precisava de uma via do documento, lá fui eu atrás de 10 assinaturas e 7 firmas reconhecidas para a segunda via. E os cartórios entram em greve.

E hoje, acordo feliz para reconhecer a última firma da última via... A moça diz que a assinatura não bate. Logo assinatura de um vizinho do interior que nunca está na cidade. Entre idas e volta, finalmente identificaram a assinatura com outro documento e pronto. Eu tinha 15 minutos para chegar no cartório do comércio (a oficiala só trabalha até 11h).

Eu já estava com todos documentos em mãos preparada para mais uma operação fracassada. O caso é que registro requer uma relação de unidades, proprietários e números de matrícula no cartório. Como de um dos apartamentos não se sabe a matrícula, precisávamos solicitar uma certidão. SÓ QUE, como o prédio é antigo, os registros estão nos Livros pré 76 e ninguém que sabe procurar no Livro. O embate estava armado: ou eles abrem uma exceção, ou entro uma ação de Habbeas Data para obrigá-los a resolver o problema e nos fornecer a informação.

Procurei a oficiala e então soube que o cartório havia sido privatizado. Fui apresentar a situação ao novo responsável e descobri que eles contrataram uma pessoa que trabalhou no cartório há 40 anos (se bem entendi) para ensinar como ler os Livros.

(Enquanto isso, fila ia até do balcão até o olho da rua. Enquanto eu era atendida, uma pessoa do cartório informou que lá fora estava um caos. A máquina da senha não estava funcionando. O rapaz simplesmente orientou a fazer as senhas manualmente. A fila se dissolveu e o silêncio voltou a reinar na sala de espera).

Recebi novas instruções. Entrei em contato com a vizinha para confirmar os dados. Eu, já chateada com os transtornos acumulados e porque ela não nunca responde a qualquer mensagem minha. Além de faltar a inscrição, o nome completo e o CPF que eu tinha não eram do proprietário do imóvel. As informações que eu tinha eram da mãe e o apartamento era do tio. Ele faleceu há duas semanas. E a mãe está bem doente, foi internada ontem, está no hospital. Ela absolutamente exaurida.

Voltei para o responsável, contei que estava encurralada. Ele mostrou a saída. Basta o número do IPTU para saber quem é o proprietário e também o CPF. Consegui o número, ele fez a gentileza de fazer a busca na internet e dei entrada no pedido da certidão. Foi como ganhar duas manhãs e achar uma nota de cinquenta reais dobradinha no fundo da bolsa. A certidão deve sair em vinte dias. Depois temos mais uns três meses para tramitar o registro.

O subsíndico respondeu ao e-mail que mandei reclamando de minha saga. Ele me chamou de Maria Quitéria. Eu respondi que quero mesmo é comemorar o registro da convenção na Proclamação da República. E assim marcaremos o nascimento de um condomínio de Repúblicas que tem uma maravilhosa central digital de interfone e plantinhas nas portas dos apartamentos!