[eu, síndica] Me lembro sempre de uma moça que me perguntou "o que faz a felicidade de uma síndica". Eu viro o dia pelo avesso. Faço como nós mulheres fazemos: pego a bolsa e jogo todo conteúdo em cima da cama. No princípio é o caos. Então as coisas e os trechos vão para seus lugares. Nem tudo é necessaire, claro - mas às vezes aparece uma nota graúda perdida.
Todo esse preâmbulo nonsense para começar a falar de cartório, lembrar que as coisas simples complicam e as complicadas dissolvem. Continuo com a missão de registrar a convenção iniciada em 2013. Não me pergunte por quê, mas estou há dez meses correndo atrás de 11 números de matrículas, 11 números de CPF, 10 assinaturas e 7 firmas reconhecidas. Além disso, como a administradora do prédio achou só precisava de uma via do documento, lá fui eu atrás de 10 assinaturas e 7 firmas reconhecidas para a segunda via. E os cartórios entram em greve.
E hoje, acordo feliz para reconhecer a última firma da última via... A moça diz que a assinatura não bate. Logo assinatura de um vizinho do interior que nunca está na cidade. Entre idas e volta, finalmente identificaram a assinatura com outro documento e pronto. Eu tinha 15 minutos para chegar no cartório do comércio (a oficiala só trabalha até 11h).
Eu já estava com todos documentos em mãos preparada para mais uma operação fracassada. O caso é que registro requer uma relação de unidades, proprietários e números de matrícula no cartório. Como de um dos apartamentos não se sabe a matrícula, precisávamos solicitar uma certidão. SÓ QUE, como o prédio é antigo, os registros estão nos Livros pré 76 e ninguém que sabe procurar no Livro. O embate estava armado: ou eles abrem uma exceção, ou entro uma ação de
Habbeas Data para obrigá-los a resolver o problema e nos fornecer a informação.
Procurei a oficiala e então soube que o cartório havia sido privatizado. Fui apresentar a situação ao novo responsável e descobri que eles contrataram uma pessoa que trabalhou no cartório há 40 anos (se bem entendi) para ensinar como ler os Livros.
(Enquanto isso, fila ia até do balcão até o olho da rua. Enquanto eu era atendida, uma pessoa do cartório informou que lá fora estava um caos. A máquina da senha não estava funcionando. O rapaz simplesmente orientou a fazer as senhas manualmente. A fila se dissolveu e o silêncio voltou a reinar na sala de espera).
Recebi novas instruções. Entrei em contato com a vizinha para confirmar os dados. Eu, já chateada com os transtornos acumulados e porque ela não nunca responde a qualquer mensagem minha. Além de faltar a inscrição, o nome completo e o CPF que eu tinha não eram do proprietário do imóvel. As informações que eu tinha eram da mãe e o apartamento era do tio. Ele faleceu há duas semanas. E a mãe está bem doente, foi internada ontem, está no hospital. Ela absolutamente exaurida.
Voltei para o responsável, contei que estava encurralada. Ele mostrou a saída. Basta o número do IPTU para saber quem é o proprietário e também o CPF. Consegui o número, ele fez a gentileza de fazer a busca na internet e dei entrada no pedido da certidão. Foi como ganhar duas manhãs e achar uma nota de cinquenta reais dobradinha no fundo da bolsa. A certidão deve sair em vinte dias. Depois temos mais uns três meses para tramitar o registro.
O subsíndico respondeu ao e-mail que mandei reclamando de minha saga. Ele me chamou de Maria Quitéria. Eu respondi que quero mesmo é comemorar o registro da convenção na Proclamação da República. E assim marcaremos o nascimento de um condomínio de Repúblicas que tem uma maravilhosa central digital de interfone e plantinhas nas portas dos apartamentos!