domingo, 9 de fevereiro de 2020

Telhado sem fim

  • Sim, [eu continuo síndica] com muitas emoções rolando no whatsapp. Tem, por exemplo, o loooongo capítulo do problema do telhado.

    Os dois apartamentos lá de cima sofreram meia década com infiltrações assombrosas. Teve uma vez que coletaram taxa extra pra reforma, a reforma foi mal feita.

    Teve mais taxa extra. Mas o valor do condomínio estava defasado e, pelo que entendo, o valor arrecadado foi alocado para custear as despesas correntes.

    Quando eu fui coroada, atualizei a taxa mensal de condomínio em 66%. Três meses depois veio mais taxa extra. O valor acumulado era 133% da taxa anterior. Demoramos uma estação e meia para juntar a grana. No dia do vencimento dos boletos, faltavam R$ 300 para bater a meta 97,52% de sucesso. Esse valor cobriria o serviço. O material seria comprado no cartão de crédito do vizinho que estava inadimplente. Sim, fazemos qualquer negócio.

    O diagnóstico sobre a infiltração não era unânime. Os engomados diziam que o problema era no telhado inteiro, que deveríamos mudar todas as telhas, substituir as telhas e o madeiramento; outros diziam que era preciso colocar uma manta asfáltica; os mais simples que dizia que era só refazer o cravejamento.

    Daí eu achei uma empresa-de-um-homem-só especializada em telhado. E segundo ele o problema era em algumas telhas e no cravejamento. A essa altura eu já sabia discutir um pouco sobre técnicas e material e a solução dele parecia a mais razoável.

    Fiz um pequeno fórum no whatsapp para debater sobre que solução escolheríamos. Eu defendi esta solução intermediária. O subsíndico discordava de mim, mas não tinha disponibilidade de tempo para defender outra solução.

    A obra custaria muito mais em conta do que havíamos previsto. Numa noite de 2016 fomos comprar material para a reforma. Na loja de material de construção, encontro a vizinha de um dos apartamentos prejudicados pela infiltração (essa é a deixa para o próximo capítulo).

    A obra foi concluída no ano passado. Em geral o problema foi solucionado, ficou um ponto de infiltração em uma cozinha. Um ponto de infiltração com muitas mensagens de "amanhã eu vou, amanhã com certeza, semana que vem sem falta, me desculpe aí, foi a chuva, é que não choveu, foi meu carro que quebrou" e tudo de novo.

    Sem paciência e sem disposição para grandes conflitos, fiz um acordo com o prestador de serviço. Ele ficou nos devendo uma obra para cumprir com o contrato de garantia. Agora estamos procurando uma pessoa para identificar qual a origem do problema.

    Um diz que tem que trocar telhas. Que tem que aplicar manta asfáltica no na laje inteira. Daí apareceu uma teoria aceitável sobre joelho da calha de cobre.

    Acho que o grande desafio é o compromisso e a comunicação com os os profissionais informais. E como resolver tudo isso à distância? Primeiro, gerenciando grupos no whatsapp pra evitar ser secretaria e ficar passando recado. Todos envolvidos sabem o que se passa. E vou trabalhando no tempo que posso, aprendendo e pedindo opinião de quem sabe mais do que eu.

    [Publicado em 8 de maio de 2018)

Dia do Fico.- mas talvez eu vá

[eu, síndica] É triste quando você pega a lista de inadimplentes e vê um apartamento coligado. E sei que se a situação não se reequilibrar, acabará a gritaria, não vão mais chamar meu nome pela janela da área de serviço, vai acabar o cheiro de comida no tardar da noite, não vai ter mais cantoria na faxina da madrugada. E eu ficaria com os causos que já sei de cor (até melhor que o dono). E nós ficaríamos com mais saudades do que já plantamos.

Sim, este é um post conciliatório de amor (eles sabem disso).

Quando indivíduos decidem formar uma república geralmente uma pessoa assume um risco maior e assina o contrato de locação do imóvel. Os demais são solidários, mas nada lhes obrigam sê-lo. Eis que meu vizinho foi acometido pela falta de compromisso e dinheiro de seus amigos com quem ele dividia o apartamento. Isto começou uma pequena revolução caótica em sua vida. Os novos moradores, claro, nada tinham a ver com esse desordenado passado. O prejudicado, ciente e muito compreensivo da situação dos amigos, decidiu, resignado, carregar a dívida sozinho.

Enquanto a vida se ordenava do seu lado, uma história familiar descarrilhou. Lá foi nosso protagonista dar suporte aos seus. Levou consigo o montante reservado para quitar o débito do condomínio e desestabilizou o que estava prestes a se acertar.

E se no princípio era o verbo, ele e os companheiros; agora era o caos, a imobiliária, a administradora, a outra pessoa que assinou o contrato, o fiador, o SPC e eu.

E lá fomos nós desenhar passo a passo uma rota estratégica de emergência com alguns meses de duração. Tudo baseado em compromisso, negociação, comunicação e diálogo. "Tudo bem, o problema é seu, mas você tem a opção de dizer que está pesado e que ajuda será bem vinda". A ajuda, aqui, vem do senso de estar em comunidade e encontrar formas de colaborar que vão além da questão financeira.

O guerreiro silencioso é obstinado, mas termina assustando quem poderia estar do seu lado.

Eu espero celebrarmos o 
Dia do Fico.

[Publicado em 20 de maio de 2018

Valor atualizado de uma birra

Cada família carrega sua batalha, neste caso não sei o que se passa. Vou me ater aos fatos que me são caros e aos números que são mais caros ainda.

O fato: a infiltração prejudicou seriamente dois apartamentos. O vazamento era tão absurdo que uma moradora, já idosa, teve que se mudar fugida.

Meses, anos e duas séries de taxa extra depois, o problema foi sanado completamente neste apartamento, ô glória.

Depois e muita chuva, enrolação, transtornos e persistência chegamos ao estado de goteira-zero no outro apartamento.

[...E não, não agradeceram o esforço e a paciência de ter me liderado as reuniões, feito cotações, estudado sobre telhas, telhado, madeiramento, cravejamento, me reunido com um monte de prestador de serviço, recebido centenas de mensagens desaforadas. Não fiz mais do que estava obrigada a fazer...]

A infiltração deixou manchas nos apartamentos. No whatsapp uma-pra-uma, a moradora de uma das unidades dizia que o condomínio deveria pintar e consertar o sistema elétrico do apartamento.

- Está correta, precisamos colocar a questão para a assembleia. A assembleia é o corpo deliberativo que decide sobre a arrecadação e investimento das taxas extras.
- Sim, a senhora está certa, por favor me diga quando podemos marcar uma assembleia para discutir o tema.
- Sim, me importo com sua mãe, não é descaso, vocês só precisam trazer a questão para a discussão coletiva. A democracia participativa resiste!
- Não, não decido sozinha. A assembleia é que toma essa decisão.

Definimos as melhorias em assembleias ou comitês sempre mantendo em vista um quadro global do que deve ser feito. É assim que funciona. E a tal família continua ignorando este maravilhoso processo regado a café e pão de queijo.

... E isso já está rolando há meeeeses.

Eu, como gosto de fazer conta, fui calcular quanto perdem / deixam de ganhar com o apartamento vazio. R$ 7.500,00 + uns R$ 900 de IPTU em um ano, contra R$ 21,900 de aluguel em potencial. São R$ 21.900 em 12 meses. Se pagassem R$ 1.900 pra pintar, teriam um lucro fácil de R$ 20.000,00.

Honestamente falando, seria mais barato financeiro e emocionalmente que eles simplesmente arcado com a pintura e alugado o apartamento.

Mas, como dizia, não sei das batalhas dos outros, só queria mesmo usar o caso para estimar qual o custo financeiro de uma birra.


[Publicado em 21 de julho de 2018)